Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘estereótipos’

“O momento em que mais odeio ser estrangeira em Portugal – e sobretudo, parecer estrangeira – acontece sempre que regresso a este país e tenho que apanhar um táxi no aeroporto de Lisboa. Sinto-me como a mosquinha que é apanhada na teia de aranha.

Não houve forma de escapar, há semanas, quando regressei de Inglaterra trazendo os meus pais a reboque. Eles vinham passar a Páscoa num país quente e solarengo. O meu pai, que é completamente obcecado pela meteorologia, tinha passado a semana anterior a acompanhar de perto as temperaturas em Portugal. Ele está convencido, apesar de todas as provas em contrário, de que o clima na Inglaterra não merece a má fama que tem e que, inclusive, é muito melhor do que no resto do Mundo. Ao mesmo tempo que eu dizia à minha mãe para pôr um ou dois fatos-de-banho na mala, ele divertia-se a informar-nos sobre a previsão de frio e chuva para Lisboa.

Mal tínhamos acabado de entrar no táxi começaram a cair as primeiras pingas no vidro do carro. “Esta semana vai estar de chuva”, disse o taxista alegremente. “É bom para as alfaces.”

No banco de trás, a minha mãe parecia muito agitada. Escapámos por pouco a um camião do Continente, no preciso momento em que o taxista apontava para as torres verdes do Centro Comercial Colombo. “O maior centro comercial do Mundo!”, anunciou ele, orgulhosamente, ao mesmo tempo que os meus pais olhavam na direcção errada para um bloco de apartamentos. “Talvez o maior da Península Ibérica”, corrigi. “Da Europa!”, insistiu ele, ao mesmo tempo que quase atirava com uma mota para o chão.

“Maior estádio do Mundo!”, continuava ele, apontando, desta vez para o Estádio da Luz. “Eu pensava que o Maracanã era o maior do mundo”, disse o meu pai enquanto olhava para o Colombo, a pensar que era o Estádio do Benfica. “Não”, disse o taxista. “Isso é o que os brasileiros dizem”.

Os meus pais estavam completamente baralhados. Quando finalmente chegámos ao Estoril, eles pareciam aliviados por estarem vivos e inteiros. Tal como eu tinha receado, o taxista apresentou-me a maior conta que eu alguma vez encontrei no trajecto Lisboa-Estoril. “Espero que o senhor não esteja a tentar entrar para o Guinness”, disse eu.

Christina Lamb, O Independente

Suplemento Vidas, 30 de Abril de 1998 (texto adaptado)

Anúncios

Read Full Post »