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Archive for Fevereiro, 2013

bife

No português europeu, num registo informal, de carácter popular e tom vulgar, «estar feito ao bife» é o mesmo que «estar em apuros, em dificuldades», segundo Afonso Praça, no Novo Dicionário de Calão, Lisboa, Casa das Letras, 2005, que nada adianta sobre a origem da expressão. Orlando Neves, no seu Dicionário de Expressões Correntes (Lisboa, Editorial Notícias, 2000), reitera na prática («não ter solução; estar arrumado, lixado») a definição de Praça, mas também não avança nenhuma hipótese sobre a génese desta expressão. O Dicionário Prático de Locuções e Expressões Correntes define-a da mesma maneira, sem comentar as circunstâncias em que terá sido criada.

Em síntese, nada pude apurar sobre as origens de «estar feito ao bife». É sabido que «estar feito» é uma locução com sentido próprio: «ter conquistado uma mulher; estar numa situação irremediável» (Neves, op. cit.). Mas, mesmo assinalando o facto de bife poder significar «fatia de carne bovina» e, em sentido pejorativo, «indivíduo de nacionalidade inglesa» (Dicionário Houaiss), fica pouco claro o modo como o sentido literal da expressão em apreço permite desvelar a sua etimologia: terá querido dizer «feito num bife», isto é, morto? Ou terá que ver com a situação histórica de geral submissão de Portugal aos ditames do Império Britânico durante o século XIX? Deixo estas perguntas à laia de hipóteses.

Carlos Rocha – 07/11/2012

in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

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é urgente o amor

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

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lavadeira

 

A lavadeira no tanque
Bate roupa em pedra bem.
Canta porque canta e é triste
Porque canta porque existe;
Por isso é alegre também.

Ora se eu alguma vez
Pudesse fazer nos versos
O que a essa roupa ela fez,
Eu perdeira talvez
Os meus destinos diversos.

Há uma grande unidade
Em, sem pensar nem razão,
E até cantando a metade,
Bater roupa em realidade…
Quem me lava o coração?

Fernando Pessoa

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frei

Era uma vez um rei que governava um país onde nunca acontecia nada de interessante. A única coisa de mais interesse era haver ali um homem que dizia não ter medo de nada. Esse homem chamava-se Frei João Sem Cuidados. O rei ouviu falar nesse homem e quis ver se isso era mesmo assim.

Então, certo dia, mandou chamar Frei João ao palácio e disse-lhe:

– Vou fazer-te três perguntas. Dou-te três dias para pensares nas respostas. Se daqui a três dias não souberes as respostas, mando-te matar! As perguntas são: Quanto pesa a lua? Quanta água tem o mar? Em que é que eu estou a pensar?

Frei João sem Cuidados saiu do palácio a pensar nas respostas que tinha de dar ao rei. E, claro, ia bastante preocupado.

No caminho para casa, cruzou-se com o moleiro. Diz-lhe o moleiro:

– Olá, Frei João. Vejo-o tão triste! O que lhe aconteceu?

O Frei João disse então ao moleiro a razão da sua preocupação:

– É que o rei manda-me matar se eu não lhe disser três coisas: quanto pesa a lua, quanta água tem o mar e no que é que ele está a pensar…Quando ouviu isto, o moleiro riu-se:

– Não tenha problemas, Frei João! Empreste-me a sua roupa e eu irei por si ao palácio dar as respostas ao rei.

Passados três dias, o moleiro, vestido de Frei João, foi ao palácio responder ao rei. O rei perguntou-lhe:

– Então, quanto pesa a lua?

– Quatro quartos do seu peso. – Respondeu o moleiro.

– E quanta água tem o mar?

– É preciso que Vossa Majestade mande tapar todos os rios, para eu poder responder a essa pergunta.

– Está bem, aceito a tua resposta. – disse o rei. – Mas agora se não souberes no que eu estou a pensar, mando-te matar!

– Vossa Majestade pensa que está a falar com Frei João e está a falar com o moleiro!

Ao dizer isto, o moleiro tira a roupa do Frei João e mostra ao rei que é o moleiro. O rei ficou de boca aberta com a esperteza do homem.

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